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Quanto vale uma vida?

As pessoas que amamos são, sem dúvida, as mais importantes na nossa jornada terrena: pais, avós, irmãos, filhos, netos. Costumamos ser condescendentes nos julgamentos que fizemos a respeito deles, porque o amor, a fraternidade, o pertencimento estão imbricados nesses julgamentos. No entanto, tendemos a ser mordazes, ferinos, quando se trata da morte de um estranho. Decerto, não prestava mesmo; devia ser um sem serventia são expressões que ouvíamos quando morre alguém violentamente, vítima de homicídio. Esquecemo-nos que a vítima – e sempre será vítima – também teve pais, avós, irmãos, filhos que o amaram, independente do seu jeito torto. Perdemos a nossa capacidade de empatia, de nos colocarmos no lugar do outro. Dias atrás, uma mãe contava-me que, em muitas madrugadas, percorreu as ruas da cidade, em uma bicicleta, em busca do filho, usuário de drogas. Ninguém sabe disso, ninguém conhece o sofrimento dessa mãe. Mas todos são pródigos em julgar o seu filho. Os assassinatos da vereadora Marielle Franco e da policial Caroline Pletsch desencadearam, nas redes sociais, uma disputa para saber qual a morte era mais importante. Qual a morte merecia “mais mídia”, qual a morte deveria ser destaque nos órgãos da imprensa ou nas redes sociais? Desnecessário! Toda e qualquer morte será pranteada por quem ama as pessoas mortas, sejam heróis ou bandidos – em algum momento, houve um pai, uma mãe, um tio, um padrinho, um avô que sonhou um futuro melhor para aquela criança. Há, nas redes sociais e no mundo off line, uma inversão de valores, despreza-se a vida, menospreza-se o ser humano, como se alguns fossem mais importantes que outros. Nestes dias de Páscoa, muitos daqueles que disseminam discursos de ódio foram às igrejas, aos templos, oraram, pediram perdão e, ali, na porta, esqueceram o sacrifício feito por Jesus, que veio ao mundo para que todos tenham vida e tenham-na em abundância. A maior prova que o homem perdeu o contato efetivo com as Escrituras e, a partir daí, com a Boa Nova, com o Cristo, com a fé e com a esperança, foi-me dada por um jovem policial, que evocou Êxodo 22 para justificar a morte brutal de qualquer bandido, sem prisão, sem julgamento legal, apenas com direito a ser sacrificado pela arma de um policial no meio da rua. Esqueceu-se o jovem que Êxodo é o segundo capítulo do Antigo Testamento e que o Novo Testamento é todo consagrado ao perdão, ao Cristo, filho de Deus, sacrificado para que todos nós fôssemos perdoados. Sim, bandidos devem ser punidos, mas devem sê-lo na forma da lei. O que está errado em nosso país é muito mais que a eventual abordagem policial, que a leitura equivocada das Escrituras, o que está errado em nosso país é um Estado – entenda-se governo oficialmente constituído na esfera federal – leniente, tolerante, permissivo, condescendente, que “lavou as mãos” diante da violência como um todo desde décadas. Não serão execuções sumárias ou comparativos infames sobre o valor de uma vida ou outra que mudarão o quadro caótico que estamos vivendo. Continuarei insistindo que um povo só tem poder quando detém conhecimento, quando consegue vislumbrar os mecanismos de dominação e isso não se faz semeando ódio. Tanto Marielle, quanto Caroline, a menina Naiara, os doentes sem esperança nos hospitais, as mães que procuram os seus filhos, usuários de drogas, na madrugada e tantos outros merecem o nosso pranto, mas aqueles que estão vivos também merecem a nossa atenção para mitigar os seus sofrimentos. Não será uma arma na mão que garantirá cidadania para um povo oprimido.

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