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Iberê Camargo, o filho mais ilustre de Restinga

Corre Chata, fecha as janelas, o mundo vem abaixo: Grita minha mãe, juntando a ação às palavras. A velha estação de madeira treme estala na boca da noite cheia de vento. No céu escuro rola, desgarrada, uma telha e zinco, leve como um pássaro. A caixa d’água, que dá de beber ao trem, tomba, riscando no ar, com a mangueira, o rastro da queda.

Na estrada, um lençol, uma lanterna, uma bicicleta transformam-se num fantasma galhofeiro. É o amigo João Mostardeiro, que brinca de assustar. Dona Adelina, a professora, o seu Antoninho Pötter, trazem-me doce-de-leite, que saciará minha gulodice por longos anos. A ponte, o riacho, as unhas-de-gato, as flores encarnadas, carnosas, patinhos, como as chamava, bóiam ainda sobre as águas, misturadas com a luz e com as sombras. O rancho da minha querida Bua, lá dentro do mato. A picada, o meu amigo Ipo, fazedor de arapucas, meu bom cavalo, que troteia, levando-me escarranchado ao pescoço. Bertulinha minha ama-de-leite. O buraco fundo com os seus ninhos de caturritas com os nichos de que pra mim não tem fim. Ali acaba o mundo, o mundo dos meus quatro anos.

Em frente da plataforma, abrupto um barranco. No topo, uma casa com muitas portas e janelas. É o outro limite do meu mundo, da minha Restinga Sêca. Horácio Borges, Mostardeiro, Giuliani, Fridrich, nomes que soam familiares. Essas impressões que acabo de evocar com saudade, as faço presentes: participam da minha expressão como pintor. É com profunda emoção que outra vez piso nesta terra, onde espirei o primeiro sopro de ar e meus olhos viram o primeiro sol. Venho para tocar as coisas e abraçar os amigos que provam, neste encontro, que não se esqueceram de mim. Dou amor, recebo amor. Não conheço e não almejo melhor troca. Posso dizer agora: estou em casa, estou na minha casa, junto dos meus. Na ausência sempre os tive presente. Ofereço o meu esforço, ofereço tudo o que melhor fizer. Vejo com alegria que nossa Restinga Sêca busca um futuro que situe no mundo moderno. Trabalhamos juntos. Peço amigos que me permitam repartir o carinho que recebo, com minha boa companheira Maria, restinguense de coração. Agradecemos a alegria que nos foi dada. Guardaremos para sempre a recordação deste encontro a terra e com os amigos.

À Restinga Sêca e aos presentes, o nosso muito obrigado.

 

(Texto escrito por Iberê Camargo em agradecimento pela receptividade, quando da visita à Restinga Sêca - 13 de junho de 1969).

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