Eu sou feliz, eu sou feliz!
Viver é um ato político! O meu professor de Sociologia Política, nos tempos em que eu cursava Ciências Econômicas, divertia-se ao afirmar que uma mulher que escolhe um batom vermelho para o cotidiano está fazendo política.
As roupas, o carro, o local em que moramos, o que dizemos – e o que não dizemos (o silêncio e a omissão) -, a forma como tratamos outras pessoas, tudo é reflexo dos nossos valores éticos, morais, a maneira como nos orientamos em relação ao mundo. Não existe neutralidade!
Negros, mulheres, população LGBTQI+, indígenas ou qualquer grupo marginalizado pela sua simples existência são um ato político de resistência às estruturas desiguais de nossa sociedade.
Viver, existir e morrer são atos políticos. O ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas suicidou-se em um ato político; o líder indiano Mahatma Gandhi, o ex-presidente estadunidense John Kennedy e o pacifista Martin Luther King foram assassinados por homens contrários às suas ideias.
Em 5 de agosto de 1954, ocorreu um crime na Rua Tonelero, em Copacabana, no Rio de Janeiro. O alvo era Carlos Lacerda, o principal líder oposicionista ao governo de Getúlio Vargas. Lacerda sofreu um ferimento leve, mas um oficial da Aeronáutica morreu. As investigações mostraram o envolvimento da Guarda Presidencial e, em particular, de Gregório Fortunato (chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas). Carlos Lacerda, abertamente, culpou Getúlio Vargas pelo atentado, associe-se a pressão política que se sucedeu, as graves denúncias de corrupção envolvendo o governo Vargas e todos sabemos o desfecho em 24 de agosto de 1954.
Há um livro que todos deveríamos ler, refiro-me à obra de Albert Hirschmann”, “As paixões e os interesses”, os dois aspectos principais que perpassam a política, quando ela é feita partidariamente na luta pelo poder. Lembram-se da célebre frase cunhada por Shakespeare: “Até tu Brutus, meu filho?!” (real ou fictícia), ela teria sido dita por Júlio Cesar, o imperador romano, brutalmente assassinado, também a mando do seu filho. A História é feita de conspirações e mortes na luta pelo poder.
Engajei-me à política partidária em 2008, sem vínculo com qualquer partido, para atuar na campanha de oposição ao governo municipal daquela época. Redigi os programas de rádio e coloquei a minha voz para apresentá-los. Foi uma grande surpresa para os líderes do partido da situação. Em 2012, não quis participar do programa de rádio. Ainda assim, desde que o meu nome começou a circular como participante da campanha de oposição, eu enfrentei hostilidades.
Em 2016, coloquei frontalmente contra o prefeito que eu ajudara a eleger em 2012 e apoiei os seus opositores. As hostilidades foram grandes. Uma lição que a política partidária ensina: não confie na sua sombra, ela lhe abandona no escuro.
Lembram-se de “As paixões e os interesses”, de Albert Hirschmann? As pessoas, em primeiro lugar, são movidas por interesses e a política é uma (mas não é a única) forma de obter a satisfação desses interesses. Os escândalos de corrupção – recordemo-nos da era Collor: Casa da Dinda, Fiat Elba, PC Farias, caseiro Francenildo. Envolveram até mesmo a LBV – mostram que inúmeros políticos têm interesses pessoais a serem saciados e, entre muitos políticos, ética e moral são atributos questionáveis ou inexistentes
Recentemente, um homem jovem me disse que sente saudade dos debates envolvendo José Serra, Geraldo Alckmin, Fernando Henrique Cardoso, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo esse mesmo homem, havia cordialidade e respeito. Creio que a Rede Bandeirantes andou publicando, faz poucos dias, um trecho à saída de um debate em que Leonel Brizola, FHC e Lula conversavam animadamente e civilizadamente. Havia um projeto maior entre eles: o Brasil.
Alguns homens sabem concorrer, sabem que ganhar ou perder faz parte do “jogo democrático”. Outros políticos têm dificuldade para aceitar o resultado das urnas. Em 2014, Aécio Neves, então derrotado por Dilma Roussef, lançou uma sombra de dúvida sobre as urnas eletrônicas, que eram usadas desde 1996. Alguns outros homens capitalizaram aquela dúvida e fizeram-na crescer a favor dos seus interesses e das suas paixões.
Aquelas infantis hostilidades que eu havia enfrentado em 2008, 2012 e 2016 não têm comparação com os adjetivos burra, corrupta, mau-caráter que me foram atribuídos na eleição de 2018, quando eu declarei voto em Ciro Gomes.
Em 2022, cresceu o questionamento às urnas eletrônicas e toda e qualquer pessoa que não aceitasse duvidar das urnas eletrônicas era chamada de burra, corrupta, mau-caráter. Estranhamente, nas eleições de 2026, não li, não ouvi questionamentos às urnas eletrônicas. Estranhamente, nas eleições de 2026, não li, não ouvi o pedido de voto impresso e auditável.
Assim como são as pessoas, são as criaturas. Quando o resultado das urnas me desagrada, eu duvido... caso contrário, se forem satisfeitos os meus interesses, as minhas paixões: eu sou feliz!
Prof. Dra. Elaine dos Santos

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