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Personalidades restinguenses - Douglas Pereira Rodrigues

Eu, Elaine, conheço a família do médico cardiologista Douglas Rodrigues desde sempre. Conheço os valores que nortearam a sua criação, ele e o irmão, o Tiugui, foram meus alunos, alunos exemplares em termos de dedicação e, especialmente, respeito ao professor, às normas escolares, cientes dos seus objetivos, centravam-se nos estudos, na aprendizagem.

Quando comecei a organização desta série, de imediato, pensei no cardiologista do Hospital de Bento Gonçalves, pela sua trajetória pessoal e profissional, pelo exemplo de vida e dedicação que pode representar para outros tantos meninos egressos das escolas públicas de nossa cidade. Tantos e tantos meninos capazes, que merecem professores dedicados, empenhados em conceder-lhes cidadania plena, não apenas o puro e simples repasse de conteúdos. Não imaginava que ele citasse o meu nome como uma de suas professoras marcantes, senti-me, sem falsa modéstia, lisonjeada. Com os senhores, mais uma personalidade restinguense, daquelas personalidades que lutaram para ser mais, estudaram, empenharam-se de fato para alcançarem os seus objetivos, a realização dos seus sonhos.

Elaine dos Santos (organizadora)

Cuidando do coração

O meu nome é Douglas Pereira Rodrigues, sou filho de Jussara Pereira Rodrigues e Luis Paulo dos Santos Rodrigues. Sou médico cardiologista, nascido e criado em Restinga Seca.

Minhas primeiras memórias de vida remetem à primeira infância, período decisivo na formação da personalidade e outros aspectos da nossa vida adulta. Minha primeira grande incentivadora foi a minha avó, a Dona Nilza, Quando eu tinha por volta de quatro ou cinco anos de idade, o meu programa favorito era dormir na casa da minha avó e eu lembro que, toda manhã, após o café, a vó me colocava sentado em frente ao fogão à lenha, me fazia segurar um jornal e dizia: "toma, lê esse jornal, tu precisa aprender a ler cedo e gostar de estudar desde cedo, porque quando crescer tu vai ser doutor... ". Nem eu nem ela sabíamos, mas, certamente, essas palavras foram decisivas para as minhas escolhas futuras.

Minha família era humilde, morávamos na vila São Luiz (no tempo em que ainda não era bairro, era vila mesmo!), o meu pai era funcionário da Móveis Gaudêncio e a minha mãe era dona de casa. Eu tenho outros dois irmãos, um três anos mais velho e outro três anos mais novo que eu. A prioridade lá em casa sempre foi "fazer os guris estudar, para terem um bom futuro." Eu sempre soube que estudar era minha chance de ter uma vida melhor. 

A primeira figura médica, que lembro ter me servido de referência, foi o Dr Carlos Alberto Abaid, ele foi o clínico geral que cuidou de mim e dos meus irmãos desde a infância até a adolescência, tinha um jeito sério e ao mesmo tempo amigável. Me passava uma ideia de segurança e de um homem sábio, inteligente. Quando eu me imaginava adulto, trabalhando, eu pensava: "quero ser como ele."

Fiz todo o ensino fundamental na escola Francisco Giuliani, guardo ótimas lembranças daquele lugar e lá fiz amigos com os quais mantenho contato até hoje. Fui alfabetizado pela professora Gicelda e pela professora Lurdes, na primeira série. Também lembro a professora Suzana, na segunda série, ela era sensacional e, através dela, fui parar em um grupo de teatro do município chamado Arte Dança, fazer dois anos de teatro me ajudou muito a vencer a timidez e aprender a falar em público. Ainda na Francisco Giuliani, por volta da quarta, quinta série, eu participei de um coral, coordenado pela professora Rejane, era incrível a paciência  e a sensibilidade que ela tinha. Fazíamos apresentações em diversos eventos da cidade e sempre ouvíamos um: "nossa Rejane, suas crianças estão afinadíssimas." Era ótimo ouvir aquilo, eram ótimas as viagens nos ônibus da prefeitura até os lugares onde faríamos as apresentações. Sempre fui um aluno razoável, nunca fui do tipo que dava trabalho para as professoras.  Quando eu estava na oitava série, os meus pais separaram e as coisas ficaram bem mais difíceis. Minha mãe, que estava acostumada a ficar em casa e cuidar dos filhos, teve que trabalhar. Acordava todo dia muito cedo e trabalhava basicamente de segunda a segunda no Hotel Ouro Preto. Graças a isso, eu pude concluir o ensino fundamental e médio sem nunca ter precisado sacrificar os estudos para trabalhar. Concluído o ensino fundamental, fui para a Érico Veríssimo, inegável a qualidade do ensino naquela época, mesmo com todas as dificuldades inerentes ao ensino público, tínhamos ótimos professores e alguns mais que isso, alguns eram grandes incentivadores. O Vilmar e as efemérides, modo que ele encontrou para fazer os alunos lerem jornal, assistirem a telejornais, manterem-se a par do que acontecia no mundo. Não consigo pensar na Érico sem lembrar a Normélia... séria, competente, experiente e uma grande educadora da matemática! Outra grande lembrança dessa época é a Elaine... Meu Deus! Que revolução a Elaine fez nas nossas aulas de literatura! Como ficou mais fácil gostar de ler e entender os livros obrigatórios para o vestibular depois de ter sido aluno da Elaine.

Terminado o ensino médio, começariam verdadeiramente os desafios. Naquela época, o Peies era uma ótima opção de acesso à UFSM. Lembro que eu fiz as provas e, na hora de decidir a profissão a seguir, eu titubeei, no fundo, eu sempre soube que queria ser médico, mas tinha medo de ser reprovado, tinha medo de cursar uma faculdade que quase todos diziam não ser para mim, porque era um curso para ricos... Acabei escolhendo química industrial, porque sempre tive certa afinidade por química. Entrei na faculdade e, na primeira semana de aulas, eu já sabia que não iria concluir aquele curso, muito cálculo, muita fórmula e a minha vontade de ser médico me levaram a cancelar a matrícula ao final do primeiro semestre. No ano em que cancelei a faculdade de química industrial (2001), o semestre havia acabado em setembro, devido a uma greve e o vestibular seria em fevereiro do ano seguinte. Estudei dia e noite (literalmente) durante aqueles meses que antecederam as provas, e, quase por milagre, fui aprovado no vestibular de medicina. Entrar naquela faculdade era  emocionante e assustador ao mesmo tempo... Eu tinha medo, porque sabia que, embora a Universidade fosse pública, os livros, os materiais necessários, o transporte, etc. seriam pagos e a minha mãe já trabalhava muito e o dinheiro era contado. Mas a minha mãe arrumou forças não sei bem de onde e conseguiu trabalhar ainda mais e apertar o orçamento lá de casa ainda mais e eu consegui concluir a faculdade seis anos após.

Depois de formado, trabalhei, cerca de dois anos, como clínico geral em algumas cidadezinhas da Serra Gaúcha e também em Santa Catarina, o objetivo era conseguir juntar dinheiro e continuar a minha formação. Em 2012, fui aprovado para residência médica no serviço de Medicina Interna do HUSM, hospital incrível, cheio de problemas, cheio de grandes profissionais, cheio de grandes histórias de superação e que me deu base e conhecimento suficiente para enfrentar a grande maioria dos desafios que um médico é submetido no seu dia a dia. Concluída a residência em Medicina Interna, decidi me especializar em cardiologia. Fiz a prova, fui aprovado e, em 2014, entrei para o serviço de Cardiologia do Hospital São Lucas da PUCRS, concluí a formação dois anos depois e, então, fui convidado a fazer parte do grupo de cardiologistas da cidade de Bento Gonçalves, hoje trabalho como médico em Bento, sou membro do corpo clínico do Hospital da cidade e tenho uma rotina muito semelhante a grande maioria dos colegas médicos Brasil afora, faço plantões, atendo  no consultório, trabalho em um serviço público de cardiologia da cidade e trabalho também no hospital. O dia a dia é muito corrido, comuns são as noites, os feriados e os finais de semana que passo no hospital. Exercer medicina em um país como o Brasil não é exatamente fácil, a morosidade do sistema público de saúde e a falta de recursos, dependendo do local onde você trabalha, são desafios sempre presentes. Em julho, completarei nove anos como formado e acho já vi quase tudo no que diz respeito a doenças e dores relacionadas à finitude da vida. Convivo quase diariamente com perdas e com lutos. Às vezes, é difícil separar o ser humano do profissional, nem sempre é simples não se deixar contagiar pelo desespero daqueles que perdem os seus entes queridos. Ser médico é um exercício constante e nada fácil de empatia, de bom senso. É preciso ser técnico, sem deixar de ser humano. É preciso focar na doença sem esquecer que existe uma vida e muitas histórias sendo tocadas por essa doença. É preciso ser continente, para saber lidar com as cobranças, com a negação do luto... Enfim, é preciso ser meio homem e meio máquina, só que não há uma fórmula para isso e esse não é o tipo de coisa que se aprende na Universidade.

Apesar das dificuldades, não me vejo fazendo outra coisa e repetiria minha escolha, se voltasse no tempo. Tudo que tenho devo ao meu trabalho e graças a ele posso, inclusive, oferecer uma vida confortável para minha mãe, uma forma de retribuir todo o esforço que ela sempre fez por mim. Felizmente, no meu dia a dia, ouço muito mais palavras de afeto e gratidão do que o contrário. Por  tudo isso e por entender que se você desempenha o seu trabalho, seja ele qual for, com amor, zelo e honestidade, o resultado será inevitavelmente o sucesso, sou muito grato à medicina e muito grato as minhas escolhas e às pessoas que passaram pela minha vida e me ajudaram a chegar até aqui.

 

 

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