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Personalidades restinguenses

Eu, Elaine, conheci o Vanderson Roso nos tempos em que ele era aluno da Escola de Ensino Médio Erico Verissimo. Lembro-me dele, sempre circunspecto, preocupado com os estudos. Sabia que ele trabalhava durante o dia e que estudava à noite, conhecia, portanto, o seu esforço. Depois, de longe, acompanhei a sua trajetória de sucesso como médico ortopedista. Convidei-o a participar dessa série que recupera a história de restinguenses que, embora não estejam vivendo em nossa cidade, mantêm-se vinculados a ela, com o propósito de demonstrar para os nossos jovens que é possível, com esforço, com dedicação, com muita vontade, vencer as vicissitudes e ser uma pessoa e um profissional vitorioso. Espero que todos gostem da leitura deste texto, objetivo, fluente, carregado de emoção.

Elaine dos Santos (organizadora)

O meu nome é Vanderson Roso, nasci em 28 de setembro de 1973, sou o quarto filho de Leoni Luis Roso e Lourdes Gerci Mozzaquatro Roso. Os meus irmãos, por ordem decrescente de idade, são Vanerlei Mozzaquatro Roso; Marilene Mozzaquatro Roso, que, ao casar-se, mudou o nome para Marilene Martini; Cledson Roso e Dalton Roso.

Passei toda a infância e o início da adolescência em Colônia Borges, na comunidade de Nossa Senhora da Saúde. Os meus pais eram agricultores e cresci nesse meio, achando que o centro do mundo era esse.

Naquela época, morávamos perto de alguns tios e, como as famílias eram grandes, sempre tinha alguém para interagir. Assim que cresci mais um pouco, a rotina era acompanhar os trabalhos na lavoura, inicialmente, levando o café da manhã ou da tarde para os mais velhos e ajudando nas atividades em torno da casa.

O salão da comunidade e a igreja eram o ponto de encontro e, nos finais de semana, era quando se interagia com as demais pessoas da comunidade, que moravam mais longe das nossas casas.

Chegado o tempo de ir para a escola, o que era um grande desafio para aquela idade, fui estudar na escola municipal Josephina Sônego, onde estudei até a quinta serie. A professora Eronilva Sônego foi a professora dos quatro primeiros ano. Para controlar toda aquela gurizada, ela era firme na disciplina, mas também muito boa educadora.

De vez em quando, íamos para a cidade. Lembro-me de ir para Restinga ou quando se estava doente ou para ir ao dentista, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, na av. Júlio de Castilhos, acho que no mesmo endereço até os dias atuais.

Naquela época, a grande diversão era o futebol, assistindo aos mais velhos jogarem no Flamengo de Colônia e sonhando ficar maior para entrar em campo também.

No verão, era época dos torneios pela região e, quando conseguíamos um dinheirinho e o pai deixava, lotávamos um caminhão de gente e lá íamos nós!

E assim fui crescendo, já na quinta série, na mesma escola, tínhamos um turma separada. Se não me engano, com a professora SusteneTessele.

Passar para sexta série foi um marco. Agora, já tínhamos que estudar na cidade, coisa de outro mundo para quem quase nunca saía de Colônia Borges. Então, fui para a Escola de Primeiro Grau Francisco Manoel, atual prédio da Prefeitura Municipal.

Fiz muitos amigos e tive grandes professores, pena que não vou lembrar o nome de todos: A Carmem de ciências, Dalila de português, a Maria Helena de historia, entre outros.

Todo santo dia, inverno ou verão, tinha que acordar seis horas da manhã, caminhar uns 20 minutos e esperar o ônibus da Rizzatti passar, geralmente já lotado, sem lugar para sentar.

Agora, já maior, quando chegava em casa, era tempo de almoçar rápido, pois o serviço na lavoura já estava esperando, seja no milho, arroz, soja ou feijão. Como tinha bastante mão de obra, tudo era mais braçal do que hoje. Trabalho era o que não faltava nunca.

Mas tenho boas lembranças do futebol do final de tarde e dos domingos, das pescarias e banhos no rio Vacacaí, que não foram poucos.

Foi nessa época que comecei a valorizar cada vez mais a necessidade de estudar para sair daquela situação de vida, que embora honrosa, era muito dura. Os meus irmãos mais velhos entraram para a faculdade em Santa Maria e isso foi um grande exemplo para nós, os mais novos.

A mãe, principalmente, por não ter tido oportunidade para estudar, sempre foi uma grande incentivadora para manter os estudos para nós, pois embora a escola fosse pública, parte do transporte era pago, o que era um grande sacrifício para aquela época.

Ao passar para o segundo grau, o meu cunhado Paulo Martini, que há pouco tempo tinha adquirido, junto com o Jorge Magoga, a Gráfica Mostardeiro, a qual passou a chamar-se gráfica Magoga-Martini; convidou-me para trabalhar com ele durante o dia e estudar à noite.

Assim o fiz por três anos, me dividindo entre a gráfica de dia e Escola Estadual Érico Verissimo a noite, no mesmo prédio da atual prefeitura também. A gráfica Magoga Martini ficava na Av. Julio de Castilhos, logo acima da antiga prefeitura. Lembro bem das aulas do Eldiro de filosofia, Normelia de matemática, Josete de português, entre tantos outros que a memória agora me falhou.

Foi nesse período que decidi encarar o vestibular para medicina, achando que era um sonho quase impossível de realizar.

Acabado o segundo grau, voltei para o interior e, entre o trabalho na lavoura e muito estudo sozinho nas horas de folga, fui me preparando. No ano que me preparava para o terceiro vestibular, tive uma ajuda muito importante do meu irmão mais velho, o Vanerlei, que  trabalhava em Porto Alegre e “bancou” seis  meses de cursinho pré-vestibular. Com aquele incentivo e muito foco nos estudos, consegui passar na primeira turma do curso de medicina da UFSM, em 1993.

Passada a empolgação inicial, o desafio era manter-se em Santa Maria e conseguir comprar os livros. Fui morar na Casa do Estudante no “campus” de Santa Maria, que é gratuita e destinada para alunos oriundos de famílias de baixa  renda.

 Foram seis anos de muito estudo e também de trabalho, pois logo busquei bolsas de pesquisas, bolsas de trabalho, que tomaram todo o meu tempo livre, inclusive nas férias, mas também me deram suporte financeiro e experiência profissional enormes. Antes mesmo da formatura, já vieram provas para realizar a tão sonhada especialização médica, conhecida como Residência Médica, sendo que escolhi a área de Ortopedia de Traumatologia.

Fui, junto com um grupo de colegas para Santa Catarina, fazer prova e consegui  ser aprovado para residência médica no Hospital Regional de São José, Dr. Homero de Miranda Gomes. Foram mais três anos de muito trabalho e estudo . No segundo ano de residência, casei-me com minha esposa, Rita Pasini Roso, a qual havia conhecido quatro anos antes, aluna do curso de História da UFSM.

Ortopedista e Traumatologista, resolvi especializar-me em Ortopedia Pediátrica, área carente na região de Santa Maria, para melhorar as minhas oportunidades de trabalho. Assim, fiz mais um concurso e fui aprovado na AACD (Associação de Assistência a Criança Deficiente) em São Paulo. Lá fomos nós dois, eu e minha esposa, para aquela cidade gigantesca e amedrontadora, pelo menos para mim, oriundo da Colônia  Borges.

Concluído mais aquela etapa, em 2003, retornei para Santa Maria e cumpri o Serviço Militar obrigatório, que eu vinha adiando, no HGU de Santa Maria.

Em 2004, realizei concurso e ingressei na UFSM, onde atuo como médico no Hospital Universitário, principalmente atendendo as crianças com problemas ortopédicos, de toda a região central e oeste do estado, sendo muitas vindas de Restinga Seca.

Neste mesmo ano, também nasceu o nosso filho, Tomás Henrique Pasini Roso.

Em 2011, conclui mais uma especialização em Medicina e Cirurgia do tornozelo e pé, sendo que, desde então, dedico-me a essas duas áreas da Ortopedia, tanto no Hospital Universitário, quanto nas clínicas privadas onde atuo.

Continuo visitando frequentemente Restinga Seca, pois a minha mãe, hoje em dia, mora na cidade, em residência próxima à fabrica de Móveis Rohde.

 

 

 

 

 

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