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Ser ou não ser – Dia Mundial do Livro

 

            No Catolicismo, 23 de abril é consagrado a São Jorge, o soldado romano que teria aberto mão de sua fortuna, entregando-a aos pobres; instado a desistir do Catolicismo ante a corte de Diocleciano (303 d.C), foi submetido à tortura e esse gesto granjeou novos fiéis, até que o imperador decidiu por sua degola em 23 de abril de 303.

            O gesto de São Jorge é-me inspirador. A obstinação dos professores que ensinam a ler livros e o mundo é um pouco esse: submetidos à tortura das redes sociais, da ignorância que grassa entre nossa gente, insistimos em motivar a leitura, emancipar cidadãos. Neste sentido, 23 de abril é-nos muito significativo, a UNESCO, em 1995, consagrou-o como Dia Mundial do Livro, em homenagem a dois grandes bardos (poetas) da literatura ocidental: o espanhol Miguel de Cervantes (29/09/1547 – 23/04/1616) e o britânico William Shakespeare (abril de 1564 – 23/04/1616). Como se pode verificar, ambos faleceram no mesmo dia e ano, ainda que se saiba que o calendário gregoriano não fosse adotado na Inglaterra daquele tempo, de modo que, na prática, Shakespeare tenha morrido 10 dias depois.

            Cervantes é menos conhecido entre nós, embora todos já tenhamos ouvido falar em Dom Quixote. “El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha” é um dos primeiros livros escritos em língua europeia moderna, o romance é considerado o expoente máximo da literatura espanhola, tendo sido, em 2002, escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos. Ademais, é tido como o precursor dos romances conforme os concebemos hoje. Dom Quixote, de tanto ler romances de cavalaria, imagina ser um herói ao estilo medieval em plena Idade Moderna, de modo que o confronto nasce entre o passado e o presente. A dualidade está expressa também nas ações de Sancho Pança, o fiel escudeiro de Dom Quixote, “homem de bem, mas de pouco sal na moleirinha”, segundo Cervantes, calcado no mundo real, e o próprio Dom Quixote, sonhador, em busca de um mundo ideal, ambos vivendo situações em que se mesclam alegria e melancolia, o picaresco, o burlesco e a emoção.

            Shakespeare é muito mais conhecido como dramaturgo, autor de clássicos como “MacBeth”, “Otelo”, “Hamlet”, “Romeu e Julieta”. Particularmente, encanta-me “A tragédia de Hamlet, o príncipe da Dinamarca”, que conta a história do príncipe Hamlet que tenta vingar a morte do pai, o rei Claudio, envenenado pelo tio, que toma o trono e casa-se com a rainha (vê-se, imediatamente, que a inspiração reside nas grandes tragédias familiares gregas).

As simbologias encontradas em “Hamlet” ao longo de séculos de análises são fascinantes, opõem-se no texto, por exemplo, ideais católicos e protestantes, de modo que o rei Claudio no purgatório ou a celebração da morte de Ofélia são marcadamente atos católicos, enquanto o ideário da predestinação de Calvino pode ser reencontrado em várias passagens. Do ponto de vista da Filosofia, o clássico monólogo “Ser ou não ser, eis a questão” é paradigma referencial do existencialismo, permitindo interpretar-se “ser” como uma alusão à vida e “não ser” como menção à morte ou, mais especificamente, à inércia. Freud, em “A interpretação dos sonhos”, dedicou atenção especial ao jovem príncipe, comparando-o a Édipo (enquanto o príncipe tebano mata o pai, casa com a mãe e tem três filhos: Antígona, Polínice e Etéocles, Hamlet tem dificuldades para assassinar o tio e, com isso, ascender ao trono ao lado da mãe, Gertrudes).

De qualquer forma – haveria tantas mais reflexões a serem feitas -, o que fica aqui é a certeza que o conhecimento humano é muito mais vasto do que se possa imaginar e que não basta um dia do livro, mas todos os dias do livro e que todos nós, professores ou não, sejamos canais que conduzam seres humanos à emancipação, libertando-os das amarras da ignorância, do comodismo, do medo de aprender.

Professora Elaine dos Santos

Doutora em Letras

Tese de doutorado disponível em

http://repositorio.ufsm.br/handle/1/3984

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